
Ri Melhor Quem Ri Depois
Cálculo no xadrez político por vezes foge à lógica
Ri Melhor Quem Ri Depois
Cálculo no xadrez político por vezes foge à lógica

“No xadrez ri melhor quem ri depois, cantei mate em três, levei mate em dois”, frase frequentemente lembrada pelo enxadrista brasileiro, nosso Grande Mestre, Rafael Leitão. Aproveitando o bom humor dele, “Grande Mestre” é um título oficial da Federação Internacional de Xadrez, e não o adjetivo que encontrei para a admiração que tenho por ele.
Jargões e bom humor caem muito bem no mundo do xadrez, mas melhor ainda no mundo da política. Até porque nós, que trabalhamos ou nos engajamos diariamente neste mundo, precisamos sobreviver - convenhamos.
Leia a frase novamente pensando na política: “no xadrez ri melhor quem ri depois, cantei mate em três, levei mate em dois”. O xeque-mate é a derrota de um dos lados e a vitória de outro (capitão óbvio, mas há quem não saiba). A frase sugere que posições no tabuleiro podem parecer favoráveis para um lado, mas, por uma mágica apenas aparente, melhor ainda para o outro.
E como se antevê um xeque-mate? Como se faz essa “mágica”? A capacidade de leitura e análise do jogo é um conhecimento que pode ser acessado e estudado. Ele influencia na mobilização dos recursos disponíveis frente às posições/cenários que nos deparamos, mas não é determinante. Quando se canta mate em três “se distrai”. Isso significa que a vitória muitas vezes depende também do deslize do adversário.
Mas o conhecimento, ainda que tácito, é uma condição necessária para possuir uma “visão além do alcance” (outro jargão importante). Em outras palavras: é importante para se ter condições de estar de fato no jogo, o que significa ter reais chances de disputa. Para uma eleição, a habilidade de utilizar os recursos disponíveis (as ruas, alianças, rede social, mídias locais, pesquisas, entre outros) frente os cenários é fundamental.
Alguns candidatos, porém, seja para o Executivo ou Legislativo, cantam mate em três, ou melhor, cantam vitória antes da hora, sem dispor da leitura atual de recursos e cenários. “Contingências” é uma palavra muito utilizada para se explicar isso: às vezes um político possui muito determinado recurso, levando-o a crer na vitória; entretanto, recursos que explicam vitórias passadas podem não ter efeitos em circunstâncias atuais.

“A exaltação da imaginação vale mais do que a descrição fiel da realidade”, não nos parece difícil um artista concordar com isso hoje. Mas houve um período em que não havia fotografia ou cinema.
Assim, as preferências que percorrem as ruas da cidade, os diferentes centros de interesses que vão de jovens indignados, passando por classes profissionais, religiosos críticos, entidades organizadas, até pessoas indiferentes, são tantas quanto suas mutações no tempo.
Das frações da elite aos pobres, o cálculo eleitoral é um cálculo, e a aplicação ou não dos recursos irá influenciá-lo.
Para caracterizar mais essa complexidade, que alimenta o buraco negro das contingências (o dado que “as coisas podem ou não ocorrer”), o cálculo envolve um custo-benefício da perspectiva de cada candidato. Quanto estou disposto a sacrificar parte da minha popularidade em nome de um projeto? Na realidade, a pergunta que fazem a maioria dos políticos é: o quanto estou disposto a sacrificar uma parte da minha popularidade por mais votos?
Assim como o cálculo de variantes no xadrez não envolve necessariamente o ganho material (ter mais peças que o adversário), o cálculo político envolve recursos para além dos concretos, são elementos simbólicos, como deferência e prestígio. O trânsito de um candidato entre diferentes circuitos de valores é importante de ser observado.
Isto considerado, pensemos: a posição que você se encontra no jogo não pode ser enganosa? Quais recursos faz sentido para ser usado frente ao seu cenário? Você está desconsiderando algum recurso para a vitória? Deixará de fazer um lance por você não ver importância na nova posição? Pensou no tabuleiro da perspectiva do seu adversário após realizar seus lances? São algumas das perguntas importantes a serem feitas.
E você, cantou mate em três ou dará mate em dois? Você vai rir agora ou depois?
O depois sempre irá existir. Depois de um novo lance, uma nova posição. Um novo jogo: vitória ou derrota. São muitas as batalhas. Algumas definem guerras.
As obras (imagens) utilizadas foram:
Zwischen Berlin und Rom (Entre Berlim e Roma) - Wilhelm Scholz, 1875
The Political Chess-Board - E.W. Kemble, 1910
“No xadrez ri melhor quem ri depois, cantei mate em três, levei mate em dois”, frase frequentemente lembrada pelo enxadrista brasileiro, nosso Grande Mestre, Rafael Leitão. Aproveitando o bom humor dele, “Grande Mestre” é um título oficial da Federação Internacional de Xadrez, e não o adjetivo que encontrei para a admiração que tenho por ele.
Jargões e bom humor caem muito bem no mundo do xadrez, mas melhor ainda no mundo da política. Até porque nós, que trabalhamos ou nos engajamos diariamente neste mundo, precisamos sobreviver - convenhamos.
Leia a frase novamente pensando na política: “no xadrez ri melhor quem ri depois, cantei mate em três, levei mate em dois”. O xeque-mate é a derrota de um dos lados e a vitória de outro (capitão óbvio, mas há quem não saiba). A frase sugere que posições no tabuleiro podem parecer favoráveis para um lado, mas, por uma mágica apenas aparente, melhor ainda para o outro.
E como se antevê um xeque-mate? Como se faz essa “mágica”? A capacidade de leitura e análise do jogo é um conhecimento que pode ser acessado e estudado. Ele influencia na mobilização dos recursos disponíveis frente às posições/cenários que nos deparamos, mas não é determinante. Quando se canta mate em três “se distrai”. Isso significa que a vitória muitas vezes depende também do deslize do adversário.
Mas o conhecimento, ainda que tácito, é uma condição necessária para possuir uma “visão além do alcance” (outro jargão importante). Em outras palavras: é importante para se ter condições de estar de fato no jogo, o que significa ter reais chances de disputa. Para uma eleição, a habilidade de utilizar os recursos disponíveis (as ruas, alianças, rede social, mídias locais, pesquisas, entre outros) frente os cenários é fundamental.
Alguns candidatos, porém, seja para o Executivo ou Legislativo, cantam mate em três, ou melhor, cantam vitória antes da hora, sem dispor da leitura atual de recursos e cenários. “Contingências” é uma palavra muito utilizada para se explicar isso: às vezes um político possui muito determinado recurso, levando-o a crer na vitória; entretanto, recursos que explicam vitórias passadas podem não ter efeitos em circunstâncias atuais.

“A exaltação da imaginação vale mais do que a descrição fiel da realidade”, não nos parece difícil um artista concordar com isso hoje. Mas houve um período em que não havia fotografia ou cinema.
Assim, as preferências que percorrem as ruas da cidade, os diferentes centros de interesses que vão de jovens indignados, passando por classes profissionais, religiosos críticos, entidades organizadas, até pessoas indiferentes, são tantas quanto suas mutações no tempo.
Das frações da elite aos pobres, o cálculo eleitoral é um cálculo, e a aplicação ou não dos recursos irá influenciá-lo.
Para caracterizar mais essa complexidade, que alimenta o buraco negro das contingências (o dado que “as coisas podem ou não ocorrer”), o cálculo envolve um custo-benefício da perspectiva de cada candidato. Quanto estou disposto a sacrificar parte da minha popularidade em nome de um projeto? Na realidade, a pergunta que fazem a maioria dos políticos é: o quanto estou disposto a sacrificar uma parte da minha popularidade por mais votos?
Assim como o cálculo de variantes no xadrez não envolve necessariamente o ganho material (ter mais peças que o adversário), o cálculo político envolve recursos para além dos concretos, são elementos simbólicos, como deferência e prestígio. O trânsito de um candidato entre diferentes circuitos de valores é importante de ser observado.
Isto considerado, pensemos: a posição que você se encontra no jogo não pode ser enganosa? Quais recursos faz sentido para ser usado frente ao seu cenário? Você está desconsiderando algum recurso para a vitória? Deixará de fazer um lance por você não ver importância na nova posição? Pensou no tabuleiro da perspectiva do seu adversário após realizar seus lances? São algumas das perguntas importantes a serem feitas.
E você, cantou mate em três ou dará mate em dois? Você vai rir agora ou depois?
O depois sempre irá existir. Depois de um novo lance, uma nova posição. Um novo jogo: vitória ou derrota. São muitas as batalhas. Algumas definem guerras.
As obras (imagens) utilizadas foram:
Zwischen Berlin und Rom (Entre Berlim e Roma) - Wilhelm Scholz, 1875
The Political Chess-Board - E.W. Kemble, 1910


