
“Embaixo Da Escada”: A Condição De Reis e Peões
Quantos talentos sua gestão mantém escondidos?
“Embaixo Da Escada”: A Condição De Reis e Peões
Quantos talentos sua gestão mantém escondidos?

“Nesta vida somos reis e peões", frase de Napoleão Bonaparte, proferida como um mantra de sabedoria por Edmond Dantes, no romance de virtú e fortuna, de Alexandre Dumas, O Conde De Monte Cristo. Podemos fazer uma adaptação dessa frase para, “um dia somos reis, noutros somos peões”. É a mesma frase, mas denota que nem sempre se está na mesma posição. A sabedoria, porém, reside em saber que todos somos reis e peões.
Na Administração Pública (dadas as proporções, talvez em qualquer organização) vivemos de fases como essas: às vezes como simples peões, às vezes uma peça intermediária, e poucas vezes rei. Alguma vez, “amigo do rei”, normalmente os cargos em comissão. Difícil haver uma valoração de cada posição a priori, haja vista para aquilo que o projeto e contexto de cada um entende por valor. Há organizações em que ser uma peça na engrenagem nos faz felizes, pela satisfação pessoal com as tarefas e uma remuneração interessante.
Estar “embaixo da escada” é um jargão que quer dizer estar alheio, à parte, quase invisível, em uma espécie de penumbra. Esquecido ou se deixado esquecer: não é sempre que queremos protagonismo, não é sempre que compactuamos com os projetos. Aliás, não é sempre que admiramos o rei. Há servidores que preferem a coadjuvância, seja por se satisfazer com o que lhe foi solicitado no edital, pela descontinuidade iminente de ações de governo, por ser mais cômodo, seja por que motivo for.
Há uma infinidade de razões para se estar embaixo da escada. Ainda mais na Administração Pública, onde o cenário é político e exerce sua influência. O pano de fundo é composto com diferentes vetores de força e dubiedades que levam a previsões imprecisas. Achar que alguém ocupará um lugar de destaque pela qualificação é um erro básico. Mas, gostaria de focar em uma situação na qual o gestor público precisa ficar atento, afinar a percepção e estar pronto para agir, a fim de melhorar sua gestão como um todo, e não só de sua equipe.
“Gestor público” aqui é aquele que está na posição de tomar decisões, dar direcionamento, estar em condição de debater e propor soluções. O “público” do “gestor” é a dimensão que mais denota o “político”, sobretudo a cidadania, ou seja, sua atuação impacta a sociedade - embora haja, também, elementos políticos na dimensão “gestar/cuidar” do termo. Não quero abordar de forma asséptica o gestor como um técnico, mas sim assinalar uma compreensão tecnopolítica de seu papel e contexto (institucional, inclusive, nos diferentes poderes e níveis de governo).
Uma situação comum é aquela em que se tem um servidor que percebe seu potencial desperdiçado. Alguém que gostaria de sair da sombra e ter uma oportunidade de mostrar seus talentos, como um novato que não é visto até dar uma caneta e marcar um golaço no intervalo da escola. Ele precisa de uma chance frente ao seu gestor. E, normalmente, quando consegue mostrar seu diferencial, o gestor irá engendrar meios de lhe valorizar e o ter por perto, dada a escassez de recursos humanos qualificados no contexto da administração pública.
Essa situação, porém, pode nunca ocorrer se o gestor não predispor esse tipo de descoberta, e se não ganhar autonomia às amarras políticas (más indicações, por exemplo). Inicialmente, é preciso reconhecer que não se conhece a equipe o suficiente. Mesmo as pequenas, muitas vezes uma habilidade distinta fica encoberta por muito tempo. Do ponto de vista do servidor, a atenção às oportunidades deve estar ligada. Mas é o gestor que precisa entender esse tipo de situação e agir, pois é comum que nem mesmo aquele veja como uma virtude o que o distingue em seu contexto.

Nesse sentido, é importante que quem dirige as organizações (setores, departamentos, gerências, diretorias, secretarias ou mesmo toda uma prefeitura) crie situações com seus liderados em que possa oportunizar descoberta de talentos necessários à gestão, para um projeto específico, ou para uma atividade de rotina. Muitas vezes uma atividade ou projeto não anda e está parado por falta de alguém com o perfil correto para assumir. E que situações são essas?
Existem modelos e métodos de gestão que ajudam nesse tipo de ocasião, muitas inspiradas no setor privado, inclusive, que adentraram as organizações públicas. O design thinking, método kanban, a gestão com foco em resultados, tudo isso envolve preferências do gestor e da equipe, contextos e possibilidades de adaptações e implantação. Não há generalização nessas aplicações.
Porém, não se trata de defender esse modelo ou aquele método. Pelo o que lemos das pesquisas, os casos de sucesso são, frequentemente, exceções insuladas ou localizadas em eventos pontuais das gestões. Dentro do ciclo dos quatro anos de governo, estabelecer essas práticas de forma contínua é raro. Em outras palavras, não é uma experiência comum ou acessível de equipes passarem, ou mesmo sustentáveis no tempo. Isso não quer dizer que não sejam instrumentos válidos (!).
Meu ponto é que o gestor precisa criar um ambiente diário de dedicação à sua equipe em que a todo momento está vigilante às boas descobertas. Isso envolve planejamento, mas também desapego. Uma advertência importante do desapego é que não se renuncia ao planejamento. É mais o contrário: pressupõe um aprofundamento no planejamento para poder “jogar” com os projetos e atividades. Trata-se de uma “flexibilidade inteligente”, na qual conhecimento, tratamento e análise de dados e informações são fundamentais.
Estar embaixo da escada é uma condição que poucos desejam. Promover peões à peças mais relevantes ao jogo da gestão de políticas públicas, a meu ver, deve ser incorporado na função do gestor público, até para mitigar os erros e potencializar acertos. Trazer mais pessoas da equipe para perto do rei é protegê-lo. A metáfora alcança uma série de situações que podemos explorar para nosso aperfeiçoamento. Mas a sabedoria de que “um dia somos reis, noutros somos peões” ensina que nunca podemos esquecer da condição temporária de cada um, principalmente a nossa.
Imagens utilizadas:
Capa da Editora Martin Claret, ilustrando bem a metáfora utilizada.
Peças do xadrez.
“Nesta vida somos reis e peões", frase de Napoleão Bonaparte, proferida como um mantra de sabedoria por Edmond Dantes, no romance de virtú e fortuna, de Alexandre Dumas, O Conde De Monte Cristo. Podemos fazer uma adaptação dessa frase para, “um dia somos reis, noutros somos peões”. É a mesma frase, mas denota que nem sempre se está na mesma posição. A sabedoria, porém, reside em saber que todos somos reis e peões.
Na Administração Pública (dadas as proporções, talvez em qualquer organização) vivemos de fases como essas: às vezes como simples peões, às vezes uma peça intermediária, e poucas vezes rei. Alguma vez, “amigo do rei”, normalmente os cargos em comissão. Difícil haver uma valoração de cada posição a priori, haja vista para aquilo que o projeto e contexto de cada um entende por valor. Há organizações em que ser uma peça na engrenagem nos faz felizes, pela satisfação pessoal com as tarefas e uma remuneração interessante.
Estar “embaixo da escada” é um jargão que quer dizer estar alheio, à parte, quase invisível, em uma espécie de penumbra. Esquecido ou se deixado esquecer: não é sempre que queremos protagonismo, não é sempre que compactuamos com os projetos. Aliás, não é sempre que admiramos o rei. Há servidores que preferem a coadjuvância, seja por se satisfazer com o que lhe foi solicitado no edital, pela descontinuidade iminente de ações de governo, por ser mais cômodo, seja por que motivo for.
Há uma infinidade de razões para se estar embaixo da escada. Ainda mais na Administração Pública, onde o cenário é político e exerce sua influência. O pano de fundo é composto com diferentes vetores de força e dubiedades que levam a previsões imprecisas. Achar que alguém ocupará um lugar de destaque pela qualificação é um erro básico. Mas, gostaria de focar em uma situação na qual o gestor público precisa ficar atento, afinar a percepção e estar pronto para agir, a fim de melhorar sua gestão como um todo, e não só de sua equipe.
“Gestor público” aqui é aquele que está na posição de tomar decisões, dar direcionamento, estar em condição de debater e propor soluções. O “público” do “gestor” é a dimensão que mais denota o “político”, sobretudo a cidadania, ou seja, sua atuação impacta a sociedade - embora haja, também, elementos políticos na dimensão “gestar/cuidar” do termo. Não quero abordar de forma asséptica o gestor como um técnico, mas sim assinalar uma compreensão tecnopolítica de seu papel e contexto (institucional, inclusive, nos diferentes poderes e níveis de governo).
Uma situação comum é aquela em que se tem um servidor que percebe seu potencial desperdiçado. Alguém que gostaria de sair da sombra e ter uma oportunidade de mostrar seus talentos, como um novato que não é visto até dar uma caneta e marcar um golaço no intervalo da escola. Ele precisa de uma chance frente ao seu gestor. E, normalmente, quando consegue mostrar seu diferencial, o gestor irá engendrar meios de lhe valorizar e o ter por perto, dada a escassez de recursos humanos qualificados no contexto da administração pública.
Essa situação, porém, pode nunca ocorrer se o gestor não predispor esse tipo de descoberta, e se não ganhar autonomia às amarras políticas (más indicações, por exemplo). Inicialmente, é preciso reconhecer que não se conhece a equipe o suficiente. Mesmo as pequenas, muitas vezes uma habilidade distinta fica encoberta por muito tempo. Do ponto de vista do servidor, a atenção às oportunidades deve estar ligada. Mas é o gestor que precisa entender esse tipo de situação e agir, pois é comum que nem mesmo aquele veja como uma virtude o que o distingue em seu contexto.

Nesse sentido, é importante que quem dirige as organizações (setores, departamentos, gerências, diretorias, secretarias ou mesmo toda uma prefeitura) crie situações com seus liderados em que possa oportunizar descoberta de talentos necessários à gestão, para um projeto específico, ou para uma atividade de rotina. Muitas vezes uma atividade ou projeto não anda e está parado por falta de alguém com o perfil correto para assumir. E que situações são essas?
Existem modelos e métodos de gestão que ajudam nesse tipo de ocasião, muitas inspiradas no setor privado, inclusive, que adentraram as organizações públicas. O design thinking, método kanban, a gestão com foco em resultados, tudo isso envolve preferências do gestor e da equipe, contextos e possibilidades de adaptações e implantação. Não há generalização nessas aplicações.
Porém, não se trata de defender esse modelo ou aquele método. Pelo o que lemos das pesquisas, os casos de sucesso são, frequentemente, exceções insuladas ou localizadas em eventos pontuais das gestões. Dentro do ciclo dos quatro anos de governo, estabelecer essas práticas de forma contínua é raro. Em outras palavras, não é uma experiência comum ou acessível de equipes passarem, ou mesmo sustentáveis no tempo. Isso não quer dizer que não sejam instrumentos válidos (!).
Meu ponto é que o gestor precisa criar um ambiente diário de dedicação à sua equipe em que a todo momento está vigilante às boas descobertas. Isso envolve planejamento, mas também desapego. Uma advertência importante do desapego é que não se renuncia ao planejamento. É mais o contrário: pressupõe um aprofundamento no planejamento para poder “jogar” com os projetos e atividades. Trata-se de uma “flexibilidade inteligente”, na qual conhecimento, tratamento e análise de dados e informações são fundamentais.
Estar embaixo da escada é uma condição que poucos desejam. Promover peões à peças mais relevantes ao jogo da gestão de políticas públicas, a meu ver, deve ser incorporado na função do gestor público, até para mitigar os erros e potencializar acertos. Trazer mais pessoas da equipe para perto do rei é protegê-lo. A metáfora alcança uma série de situações que podemos explorar para nosso aperfeiçoamento. Mas a sabedoria de que “um dia somos reis, noutros somos peões” ensina que nunca podemos esquecer da condição temporária de cada um, principalmente a nossa.
Imagens utilizadas:
Capa da Editora Martin Claret, ilustrando bem a metáfora utilizada.
Peças do xadrez.


